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    Blog dos Baião , a várias mãos...


     

     

    TAXI 


    Quando estou sem você

    o coração do mundo bate frouxo

    como um tarol rachado;

    tento ver seu rosto nas estrelas,

    procuro ouvir a sua voz no vento.

    As mãos velozes das ruas

    me roubam de você

    e os olhos acesos da cidade

    apagam nos meus a sua imagem.

    Por que soltar a sua mão

    para agarrar as franjas farpadas da noite?

     

    (Amy Lowell /Afonso Guerra-Baião)

     

    THE TAXI  (Amy Lowell)

    When I am away from you / the world beats dead / like a slackened drum.

    I call out for you against the jutted stars / and shout into the ridges of the Wind.

    Streets coming fast, / one after another, / wedge you away from me,

    and the lamps of the city prick my eyes / so that I can no longer see your face.

    Why should I leave you, / to wound myself upon the sharp edges of the night?  

     

     



    Escrito por Baião às 09h59
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    estrelas do baile fúnebre (Rafael Baião)

                  ESTRELAS DO BAILE FÚNEBRE

     

    Abri o livro para ler a última cena da peça 'Tio Vânia', de Tchekov, que ganhei de Ano Novo de meu tio avô, quando chegou uma notícia bombástica: Tio Zeferino acabava de ser internado às pressas no hospital. Seu estado era gravíssimo e nossa situação financeira, de um momento pra outro, preocupante.

    Todos nós, sobrinhos, sobrinhos-netos, agregados, dependíamos dele. Dependêramos sempre, na verdade; era só ele a tocar os negócios. Vivíamos na maré mansa de sua sombra, realizando pequenos e eventuais trabalhos, como acompanhá-lo em uma recepção, uma vernissage, jantares, viagens, desfile de moda, coisas assim. Benesses e favores já era pouco para nós; a gente gostaria mesmo era de afundar as mãos na fortuna do velho.

    Fechei o livro, abri na página da dedicatória e fiquei mirando aquela assinatura tão bem desenhada - Zeferino de Coelho Stanislavski Baião - não vou revelar os nomes, mas houve entre meus irmãos e primos quem ousasse sem sucesso treinar imitá-la. 

    Nosso tio avô não poderia ser pessoa mais peculiar. Era o único de todo o clã a garantir que corria em suas veias uma herança soviética, além de boa dose de sangue lusitano, é claro (sífilis não); e soava proposital o modo como acentuava marcadamente o sotaque de um idioma do qual jamais aprendera palavra alguma.

    Já nascera rico esse tio avô. Descendente direto do Senhor de Baião, primeiro português com esse sobrenome a aportar na terra brasilis, rico fidalgo e cavaleiro medieval da casa de um D. Afonso, dominava a região de Baião, situada no norte de Portugal.

    Tio Zeferino Baião era amável no trato pessoal, mas nos negócios era um homem hábil, rígido, hostil, escorregadio que nem quiabo, arisco como um veado. 

    De sua vida amorosa, ou opção sexual, sabia-se bem dizer nada: que nunca se casara e que correram boatos que talvez tenha comido umas freiras da Escola Normal. O certo é que as infelizes vagaram uns tempos pelas ruas ensolaradas da cidade, sem auxílio de deus nem do diabo, até sumirem na poeira do esquecimento. 

    Pra dizer a verdade, nosso Tio Avô era mesmo um esperto, um espertalhão. Praticava deliberadamente a agiotagem e não tinha muito escrúpulo se a questão fosse o beneficio próprio. Mas o danado do homem era popular; fora prefeito e senador biônico. Era vulgarmente conhecido como Seu Severino, Severino Coelho, Sinhô Baião, e os mais críticos ou debochados o chamavam de Severinoqüêi. Nosso meio-irmão ainda não tinha onze anos quando fez uns versos pra ele:

              'por onde passa o Severinoqüêi

              qualquer perdigueiro ou bicheiro

              sente cheiro de dinheiro' 

    Nos últimos tempos, sentindo-se velho com um cão, dizia que finalmente estava prestes a morrer; dizia e estava mesmo, mas não seus negócios:  - Meus negócios não, de forma alguma! Meus negócios serão perenes! - afirmava.

    Mas não foi bem assim; a doença do Tio Avô se arrastava e parte de seus negócios foram pro brejo. Quanto a nós, de nada adiantava pertencermos a uma família tão católica: a ruína ia puxando um por os tapetes sob nossos pés.

    A menos de um mês do carnaval, ele permanece em coma profundo e a junta médica não dá qualquer esperança. Ele, o principal destaque e homenageado da Escola de Samba da Unidos não podia faltar ao desfile. Seus sócios, os investidores e os bicheiros amigos viam nesse desfile um fator em potencial para alavancar os negócios. Uma grande jogada, onde rolaram cabeças e propinas. 

    Se negou a sair em carro da escola, em vista do terrível espetáculo do último carnaval, com carros se quebrando, incendiando-se, destaques despencando-se das alturas. Desfilaria, por medida de segurança, em uma de suas limousines, trajando luxuosa fantasia.

    Foi aí que nosso irmão do meio entrou na história, trazendo uma ideia fantástica. Era assim, quando ele tinha uma ideia, era sempre genial. Ele que cursara com brilhantismo quase a metade do curso de Teatro em uma conceituada universidade pública, propôs fazer uma réplica do Tio Zeferino. Uma réplica? Como assim? Uma marionete idêntica a ele, em tamanho natural, para substitui-lo no desfile de carnaval. 

    A princípio a ideia foi rejeitada pelos mais velhos e pelos mais prudentes. Mas ele persistiu; apresentou desenhos, maquetes - era a única forma de salvar a fortuna do Tio, agora tão próxima, fazendo cócegas em nossas mãos, ante a espectativa de sua morte. 

    O boneco era perfeito, tanto nas feições quanta no detalhismo da manipulação - digno de um Álvaro Apocalipse! 

    A marionete desfilou na mais sofisticada limusine do nosso Tio Avô, sob uma chuva de aplausos, confetes e pétalas de rosas. Tio Sam e Tio Patinhas se morderiam de inveja! O sucesso na passarela evitou a ruína de quem nunca se preocupou com trabalho: éramos novamente felizardos! 

    Zeferino de Coelho Stanislavski Baião deixou explícito em seu testamento: 'quero velório festivo'. 

    Na noite de quarta-feira de cinzas, dançávamos ao redor de um dos mais ricos cadáveres do país. Pavoneavam nossas irmãs, primas, cunhadas, concunhadas, namoradas, exibindo os melhores vestidos de festa e jóias cintilando pelo corpo. E não era só elas, todos nós queríamos brilhar nesse baile.

    Saboreávamos refinados petiscos e dezenas de champanhe tinham sido estouradas, quando entra em cena nossa irmã mais velha, beata de fé, única pessoa em quem nosso Tio Avô realmente confiava. Trazia a gravação da música que ele escolhera para seu próprio velório. 

    Ao ouvir o resfolêgo da sanfona, vibramos, era Luiz Gonzaga! Dele, todos sempre gostáramos. Êita velório animado! "Hoje o forguêdo vai sê de matá". A sanfona, a zabumba, o triângulo e a voz inconfundível:

              "Ai, baião, você não pode partir,

              Ai, baião, o povo te quer aqui

              Para reviver a glória dos dias teus

              E a voz do povo é a voz de deus... "

    Trocamos olhares apreensivos e olhamos pro morto estarrecidos: ele entortou os beiços prum lado, meio que abriu um olho e franziu outro com força. Fez-se um silêncio sepulcral. O tio defunto resmunga uma risadinha sarcástica e o baile segue:

      "O baião, vai, o baião vai

               O baião vai se levantar...  "




    Escrito por Baião às 22h36
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    Escrito por Baião às 13h26
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    A moça, o sorvete e a rosa




    A moça, o sorvete e a rosa

                                               

     
    Juliana ganhou uma rosa e um sorvete. O Sorvete era de Acesso.
    Precisava olhar com ligeireza para ele, antes que o sol de Aracaju o desfizesse em água.
    A rosa era de Afeto. Mas, tocando com ligeireza a rosa, a moça espetou o dedo num espinho.
    O Afeto não carecia de pressa, mas sim, de ir devagarzinho, de cuidado.
    Desenhou-se uma roda: a moça, o sorvete e a rosa.
    Girou através da praça e entrou na rua de baixo, perto da Assistência Social, no meio do bairro.
    Era a rua da escola, da igreja e da Unidade de Saúde. Entre casas e pontos de ônibus.
    Por lá, um monte de pessoas, com a pressa da vontade, precisando  de fato e também, da calma do cuidado.
    O ruído falava disso tudo, mesmo sem saber e mesmo sem se ouvir. Falava do acesso e do afeto.
    Resolveu entrar, pois fruto do sorvete ou da espinhada, lhe escorria pelo dedo, numa calda vermelha.
    Mas já não era um dedo, nem somente se tratava das mãos.
    Era uma moça inteira, que trazia nos mesmos braços descobertos a doçura e o engasgo do choro.
    Esperou para falar com alguém.
    Até falou muito e alto, mas continuou esperando para falar com alguém.
    Num canto da Unidade de Saúde,  o sorvete não gelou seu coração. Esperou mais e o movimento de feira passou.  
    Um sorriso entrou na roda e virou abraço. E o abraço fez a confusão virar confidência.
    Num instante, ficou a moça tonta e, ali, de repente, aquela sala não tinha mais canto.
    Tudo rodava, era roda, e voltava a ser canto. Dessa vez canto de cantar. Era confusão, era confissão, era enfim, construção.
    Recebeu o acalanto,  como naquela canção. Do açúcar, do afeto e do acesso, Juliana voltou a si.
    Alguém havia lhe secado o braço, e apurado o ouvido para perceber seu engasgo de choro, até ele se dissipar.
    Quem a moça acessava, e o que a afetava, era um moço. Ela saiu de lá num ritmo normal. Nem correndo e nem se demorando.
    Se afastou, já ouvindo a roda como um ruído a que pertencia. Seguiu até o final da rua, e foi para além do parque.
    Quem sabe outro sorvete, outra rosa. Talvez outro espinho, outra roda... Talvez outra Juliana.

    (André Baião)



    Escrito por Baião às 22h57
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    angelus novus

    aa

     

     

    “Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

    (Walter Benjamin, “Obras Escolhidas”, tradução: Sérgio Paulo Rouanet, 1994 – 7.ed. Editora Brasiliense. p.226).

     

     

    ANGELUS NOVUS

     

     

    Para Paul Klee e Walter Benjamin

     

     

    anjo do jardim perdido,

    salva em teus seios a virtude

    da fonte da eterna juventude;

     

     

    guarda em teus lábios o sabor

    da fruta do bem e do mal,

    anjo da terra primal;

     

     

    anjo do horto interdito,

    traz em teus olhos o sentido

    do prisco destino;

     

     

    anjo do prístino sonho,

    leva no lombo, nos ombros

    os arcanos dos escombros

     

     

    (Afonso Guerra-Baião)        

     

     



    Escrito por Baião às 09h27
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    velar, revelar (Rafael Baião)

    VELAR, REVELAR 
    (uma canção brega)


    Você pode negar-me em tudo

    o toque, o olhar, o pensar;

    no trabalho, na lida, no lar

    (não querer sua vida mudar)


    Pode noites em claro passar

    a tremer e tremer

    temendo em sonhos trair-se


    Você pode fingir não me ver

    mas não pode passar sem ser vista


    Até pode fingir não sentir

    quando olho, sedento, em cheio,

    o calor de seu peito a pulsar


    - Ah, é fingir demais pra si própria!

    é de matar de rir! é de não crer!

    (anda tão descreditado o seu fingir!)


    Você pode frustrar um querer

    mas não pode impedir

    que ele exista


    Pode até impedir que floresça...

    ...mas cadê a semente perdida?

     

    (Rafael Baião)



    Escrito por Baião às 03h08
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    arlequim e máscara (Rafael Baião)

    TAPA NA MÁSCARA


    Aqueles olhos fundos

    pareciam viver (serviam)

    só para ver.


    Busquei neles

    um ardor, um olhar,

    uma lágrima.


    Enterrados profundo na carne,

    guardavam, aguardavam, escondiam

    o brilho, o que sofriam.


    Num salto mortal, se mostrou àqueles olhos 

    meu coração arlequinesco.

    De pronto 'stampou num tapa

    a máscara da negação

    de todo o sensível.


     (Rafael Baião)



    Escrito por Baião às 02h23
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    o tamanduá de jardim (Rafael Baião)

    O TAMANDUÁ DE JARDIM

     

    Quase todas as pessoas têm animais de estimação. Eu não tinha e quis ter um, mas que fosse de alguma utilidade prática. Aqui em casa tem muita formiga. Comem minhas couves e minhas roseiras num piscar de olhos e circulam noite e dia por infindáveis trilhas. Eu já tinha ouvido falar em um mini tamanduá, muito adequado para se ter em jardins e em pequenos pátios.

    Mudei-me há pouco tempo para o bairro Belém Novo, extremo sul da cidade de Porto Alegre, onde já é quase zona rural. (Esta é a capital brasileira com a segunda maior área rural, só perdendo para Palmas, em Tocantins)

    Então fui a uma agropecuária. Aqui tem muitas dessas casas de comércio que vendem desde pequenos animais, alimentos e acessórios para eles, até ferraduras, freios, arreios para cavalos, fardos feno - coisas que para mim como ser-urbano que me tornei, ficaram com o tempo tão distantes.

    Pois tinha lá o tal Tamanduá-de-Jardim, pouco maior que uma galinha. Fiquei entusiasmado com a idéia de levá-lo para exterminar as formigas de meu quintal e comprei-o. Um pouco caro, mas pude pagar em várias vezes no cartão de crédito. O comerciante perguntou seu eu não queria levar também uma casinha, espécie de maleta para transportá-lo; seria muito útil quando tivesse que levá-lo ao veterinário ou a um piquenique. Comprei. Eu já ia saindo com o animal quando ele me chamou de novo: - Você não quer aproveitar a promoção e levar também um quilo de ração? E eu: - Não! ele vai se alimentar só de formiga, lá em casa tem muita. E ele: - Mas este tamanduazinho é transgênico, só come ração! Fiquei pasmo! Mas tinha me agradado muito do bicho, não quis desfazer o negócio.

    Chegando em casa, primeiro pensei em colocá-lo no galinheiro. Teria a companhia das galinhas e à noite o aqueceriam. Mas não! – pensei - ele pode querer chupar o cérebro das galinhas.

    Desde então o crio dentro de casa; come sua ração num potinho de plástico, sorve ávidamente uma xícara de leite morno, dorme no sofá como um gato manso e emite um roncado tranquilo quando o acaricio. Seu pelo se torna a cada dia mais macio e vem até adquirindo certos hábitos e aspectos felinos. Quando o levo à pet-shop ou ao veterinário, a criançada me rodeia; querem acariciá-lo, pegar no colo e fazem as perguntas mais curiosas.

    A história terminaria assim, semelhante a um conto de Franz Kafka...

    ... se eu não tivesse tido a brilhante idéia de ler para ele os quadrinhos do Henfil. Ele reage alegremente diante do Fradim, mas vibra mesmo é com o Tamanduá: "a besta do apocalipse que assola nosso torrão", e que "chupa cérebros para revelar as faces ocultas de pessoas que aceitam as condições políticas e culturais vigentes".

    Passei a me sentir um ser um pouco mais politizado. FIM da penúltima parte.


    (Rafael Baião)



    Escrito por Baião às 14h08
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    Ode



    Escrito por Baião às 18h25
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    um tropicalista (Rafael Baião)

                UM TROPICALISTA

     

    Estava prometido; num fim de tarde,

    Há quem diga, ele foi visto

    A caminhar noutro andar pela paisagem

    Bucólica do parque nacional

    Meio a brilhar, meio a titubear.


    A silhueta entre as palmeiras ia que ia

    Nem meneava a cabeça a quem o cruzasse

    Nem mijou no velho tanque ao passar

    Como era de costume


    Foi desse jeito assim

    Que o sujeito foi visto na última vez.


    Logo que escureceu

    Se viu um clarão:

    Ele fora alvejado

    Ao embalo de sua rede no alpendre

    Quando levava aos lábios

    Um cacho de uvas do oriente!


    Está lá, estampada em sangue,

    A imagem de seu corpo no manto.

     

    (Rafael Baião).



    Escrito por Baião às 01h21
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    HALLEY - 1986

    pintura do sec.XV do Cometa Halley

     

    Halley - 1986

     

    Adeus, pequeno cometa.

    Esperei por você, em 1986.

    E sei que, vivo, eu não irei vê-lo mais.

    As palavras , não trocamos

    Na noite em que eu acordei para sua chegada,

    Olhando para o céu... aí mesmo, sem saber de nada, de constelações.

    Mas sonhava do rastro, tão claro e rápido, cingir as estrelas todas.

    Sua passagem, que para sempre nos mudaria...

    Passou. E ficaram todos sem aquela energia e encanto.

     Há quanto tempo, agora somente tempo...

    O que tinha você, que se deixou ferir no céu e seguir para longe?

    Guardo as lembranças como se fossem um punhado de sementes mágicas,

    que seriam trazidas por um pequeno mago em seu capuz.

    Um sorriso, uma visão, um segredo que ninguém acreditaria se contasse.

    Que ele veio somente para me dar isto.

    Despedi-me, breve, prático.

    Sobraria tempo para as filosofias.

    O que não disse, devia tentar convencer a mim mesmo.

    Em algum tempo, a travessura genial da órbita, em algum canto reaparecerá.

    Se juntarão para ver o seu retorno.

    Certamente irá semear em outro coração e de novo partir. 

     

    (André Baião)



    Escrito por Baião às 11h14
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    BURACO DE MINHOCA

    xilogravura de J. Borges

     

    BURACO DE MINHOCA

     

    Acredita em contos da carochinha? Então você sabe que houve um tempo em que os bichos falavam. Para consolo dos mais incrédulos, a ficção pode sempre imaginar um universo paralelo em que a fábula se corporifique como real. Então, superando as divergências entre crentes e incréus, você e eu somos tragados pelo enferrujado e rangente portal de um buraco de minhoca: de repente, não mais que de repente, estamos nós alí, atrás da mais viçosa moita de capim-cidreira, testemunhando uma assembleia deles, os falantes animais.

    Talvez não seja propriamente uma assembleia, mas algo como uma aula ou uma entrevista, em que um bode de longas barbas brancas responde às questões da bicharada ao seu redor. E o assunto era o bicho homem.

    - É verdade – pergunta o Galo – que houve um tempo em que os deputados não falavam?

    - Não só os deputados, mas as pessoas em geral.

    - Sério? – balbucia a trêmula Raposa.

    - Foi no tempo da ditadura – e aqui o Bode destrincha o conceito em alguns tópicos: censura, arbitrariedade, tortura, perda de direitos coletivos e individuais.

    - Mas alguns querem a volta da ditadura! Como é que pode? – exclama a Toupeira.

    - Parece filme de terror – diz o Cavalo. Invocação do mal 2.

    - Mas o mal volta diferente, explica o Bode. Em vez de ditadura, um golpe parlamentar.

    - A história se repete como farsa, comenta a Coruja. Uma farsa protagonizada por um mordomo de filme de terror.

    - Mas esse filme – diz a Cobra, sempre sibilina – bem merece o título de um policial: os homens que não amavam as mulheres.

    Justo então, o portal do buraco de minhoca volta a ranger em seus gonzos enferrujados, e lá vamos nós de volta, lá para onde vivem os seres racionais, o Homo Sapiens, mas nem eu nem você exclamamos ao chegar:

    - Lar, doce lar!

     

    (Afonso Guerra-Baião)



    Escrito por Baião às 11h14
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    POR QUE ME UFANO?

     

     

    EU ME UFANO DO MEU PAÍS?


    Em meus primeiros anos na escola, a professora me apresentou ao poema “Por que me ufano de meu país”, escrito pelo Conde Afonso Celso no século XIX. Não posso dizer que tive prazer em conhecê-lo. Primeiro, porque achei feia a palavra “ufano”. Depois, com o tempo, fui desgostando cada vez mais daquele e de todo ufanismo: a falta de senso crítico com que se cultua a pátria ou o que quer que seja.

    Nos antípodas do poema de Afonso Celso está a canção cantada por seu bisneto, Dinho Ouro Preto: “Que país é esse?”.

    - Que país é esse? – perguntei ao primeiro conhecido que encontrei na rua, pensando no cu de boi que hoje é a interpretação da Lei, bem como a relação entre os poderes em nosso país.

    Mas o cara estava mais para conde do que para roqueiro. Dominado por um destilado espírito ufanista, ele me brindou com verborrágica cascata de perdigotos:

    - Esse é o país que faz meu peito se enfunar de orgulho! (Enfunar: ele tinha que escolher uma palavra tão feia quanto ufanar.) - Agora sim! – continua ele, enfunando-se e ufanando-se cada vez mais. Esse é o nosso Brasil viril, em que as mulheres podem se recolher com recato ao recôndito dos lares, pois elas não querem ser empoderadas, mas amadas. Decerto poderão enfeitar as recepções e até adornar algum puxadinho do pátrio poder. Sim, pois nesse país varonil os homens não fogem ao seu dever natural de chefes da Família e do Estado – não só os homens de verdade, mas também aqueles nem tanto, desde que se submetam aos poderes da cura gay, consolando-se com um exame semanal de toque retal, sempre pensando nos interesses mais altos da nação, na moral e nos bons costumes.

    A essa altura eu já precisava de um guarda-chuva. Ele seguia, embalado:

    - Em nome da minha família, invoco as forças vivas do capital e do trabalho! Em nome do progresso, convoco o mar de lama das mineradoras para lavar o sangue ruim que mancha nosso auriverde pendão com a marca corrupta do comunismo ateu!

    Quando percebi que ele não falava só pra mim, fui saindo à francesa, antes que a crescente roda de curiosos começasse a se manifestar.

     

    Afonso Guerra-Baião



    Escrito por Baião às 08h38
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    LINHA DE TEMPO

    Ilustração: Paulo Sayeg

     

     

     

    LINHA DE TEMPO

     

    Desde que me entendo por gente, ouço pessoas dizendo que “político é tudo ladrão”; outras, de forma mais pretensiosa, afirmavam que “a classe política é corrupta”, como se os eleitos constituíssem uma classe social. Para meu avô, qualquer político só podia dizer que em seus bolsos nunca entrara dinheiro público quando estava usando roupas novas.

    Apesar dessa abordagem sempre negativa, eu me interessava pela política. Cheguei a pensar que era uma tendência para o mal, como contei ao padre, por falta de maiores pecados, numa das confissões mais ou menos obrigatórias das primeiras sextas-feiras. Tranquilizado pelo vigário, passei a desconfiar das afirmações majoritárias, do senso comum. Algum tempo depois, cursando o Clássico, encontrei uma palavra para classificar aquela visão preconceituosa da política: hipérbole, a figura retórica do exagero. A compreensão de que uma elaborada retórica circulava, com o fim de desestimular a participação popular, só fez aumentar meu interesse pela política.

    Nunca faltou quem chamasse esse meu interesse de ilusão. Mas, se o tempo vence toda ilusão, como diz a canção de Bosco / Blanc, o momento presente toca o nervo exposto do meu interesse pela política: a retórica que circula hoje substitui a hipérbole pela metonímia - a figura que usa a parte em lugar do todo. Nesse discurso, um único partido é culpado pelas mazelas que permeiam a prática política no Brasil e apenas uma pequena parte de nossos políticos detém os direitos autorais da corrupção no país.

    A minoria que produz essa retórica, detendo a hegemonia dos meios de comunicação, faz seu discurso circular como se fosse um consenso. Quem não é analfabeto político percebe que é, na verdade, um contrassenso – e sabe que o Homem não é aquele que repete, mas é aquele que diz a sua palavra.

     

     

    (Afonso Guerra-Baião)           



    Escrito por Baião às 17h28
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    Lector in fabula

     

     

     

    LECTOR IN FABULA


     

    Algumas vezes eu me sinto na pele (ou na carapaça) de Gregor Samsa. Um pouco melhor, pois não acordo transformado em um inseto: na verdade, desperto em minha própria pele, porém dentro de um cenário fantástico, como figurante de uma fábula, com o dom de ouvir e entender os animais. Como um discreto figurante, eu me posto a um canto da cena, enquanto ouço os diálogos dos protagonistas. Mas será que eu entendo mesmo o que escuto?

    - Seu moleque, diz o Lobo ao Cordeiro, como é que você ousa sujar a água que estou bebendo?

    - Calma, seu Lobo, responde o Cordeiro, como posso sujar sua água se bebo num ponto mais abaixo na correnteza?

    Lá no meu canto, eu me abaixo pra escapar das fagulhas que saltam do olhar fulminante do Lobo.

    - Mas você agita muito as águas. E no passado andou agitando as massas, espalhando boatos maldosos a meu respeito no meio da plebe ignara.

    - Não pode ser, seu Lobo, eu ainda sou muito novo...

    Agora eu me escondo atrás de uma árvore para fugir dos perdigotos que pulam da bocarra cheia de dentes do Lobo.

    - Se não foi você, foi seu irmão.

    - Mas, seu Lobo, eu sou filho único...

    - Então foi seu pai!

    - Seu Lobo, eu nunca conheci meu pai!

    Posso ver até as amígdalas na goela escancarada do lobão faminto.

    - Então foi alguém que mora em seu apartamento.

    - Eu vivo aqui no campo, ao ar livre, seu Lobo!

    - Então o culpado é quem te vendeu esse sítio.

    - Eu não sou dono da terra, seu Lobo!

    - Não importa! Antes que você tenha tempo de se reproduzir e infestar o ambiente com sua raça ruim, eu vou te engolir.

    Quando o Lobo avança sobre o Cordeiro, eu, Lector in Fabula (grazie, Umberto Eco), assumo meu papel de co-autor do texto e mando cortar a cena. Blackout. Que a História, resgatada, nos dê de novo à luz.


    (Afonso Guerra-Baião)

     

     

     

     



    Escrito por Baião às 16h34
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